• A arte e a técnica de brincar com o desfoque

    A arte e a técnica de brincar com o desfoque

    Por Laurent Guerinaud – Publicado na Fotografe Melhor – Técnica & Prática

    Zooming - São Paulo

    Fotos desfocadas nem sempre são erros. O desfoque pode torná-las mais artísticas, misteriosas, poéticas ou ainda retratar o movimento ou destacar o tema...


    Todo fotografo já fez fotos desfocadas, que foram direito para o lixo. Com a experiência, o conhecimento da câmera, das técnicas fotográficas e, claro, a melhoria da agilidade, é possível reduzir muito o numero de fotos desfocadas por falha. A etapa seguinte é aprender a... desfocar de propósito!
    O desfoque proposital tem as mesmas origens técnicas dos erros. Ou seja, existem vários tipos de desfoques e cada um pode ser usado como ferramenta para realçar as fotos. Portanto, o desfoque pode resultar de uma profundidade de campo reduzida, de uma focagem deslocada, do movimento tanto do tema quanto do fotógrafo, ou ainda das características do equipamento.

    FOCAGEM SELETIVA
    A primeira fonte de desfoque é a obtenção de uma profundidade de campo reduzida pela escolha da abertura, ou seja, quanto mais aberto o diafragma, maior o desfoque. Quanto mais fechado, menor.  A partir disso, o fotografo tem varias opções para aproveitar a técnica.
    O mais obvio é focar precisamente o tema, que ficara totalmente nítido enquanto tudo ao redor estará desfocado. Nesse caso, abrir fortemente o diafragma permite destacar mais o tema. Outro interesse desse processo pode ser desfocar um fundo sem graça ou ainda trazer um pouco de mistério, deixando o observador imaginar para onde estão indo as linhas vagas do que parece ser uma estrada atrás do tema.

    A mesma liberdade de imaginação pode ser ainda mais enfatizada se o fotografo escolher focar num detalhe da cena, deixando o tema desfocado. Muito criativo, esse efeito ressalta a ação do tema, que se torna mais acessório na imagem. Pode ser uma mão desfocada se aproximando de um objeto, ou uma silueta incerta que se mexe na direção de um ponto nítido.
    Geralmente, o detalhe nítido vai ser o ponto de inicio da leitura da foto. Assim, o fotógrafo vai construindo a imagem para que o observador possa imaginar (ou se perguntar sobre) as ações do tema, os motivos dele, de onde vem, o que vai fazer... O desfoque permite deixar que o observador adivinhe as coisas, pois não mostra a imagem. Isso faz o observador se envolver mais com a imagem.
    Para obter esse resultado, o uso do desfoque e a construção da imagem têm que ser bem controlados pelo fotógrafo pois, caso contrario, o observador não vai se interessar.

    Essa é a maior dificuldade de utilização do desfoque. Ou seja, a imagem tem que contar uma historia que possa ser entendida desde o primeiro olhar, tem que mexer com símbolos, contraste de volumes e/ou de cores para ser interessante.
    Por isso, o conhecimento das regras básicas de composição ajuda muito. Geralmente, o olhar vai focar primeiro no ponto nítido da foto, ainda mais se ele se situar num dos quatro pontos de ouro da imagem (lembra da Regra dos Terços?). Dessa forma, o fotógrafo guia o olhar do observador até outros pontos usando diagonais, motivos repetitivos ou combinação de cores.

    DESFOQUE DE MOVIMENTO
    Outra fonte de desfoque é o movimento. Combinado com um tempo de abertura longo, gera um tipo de desfoque bem diferente do anterior: é mais parecido com linhas ou ondinhas riscando a foto.
    Há vários jeitos de retratar o movimento do tema pelo desfoque. O fotógrafo tem que escolher a velocidade do obturador: quanto menor a velocidade, maior o desfoque resultando do movimento. A dica é eleger uma velocidade 1, 2 ou até 3 pontos mais baixa do que o limite teórico para fotos sem tripé.
    Esse limite é fácil de se conhecer: corresponde ao inverso da distância focal. Por exemplo, para ter a certeza de tirar uma foto nítida a objetiva 28 mm, a velocidade tem que ser superior a 1/28 de segundo (ou seja, 1/30s). Para 50 mm, 1/60s; para 200 mm, 1/250s e assim por diante. Isso é calculado com base na distância focal de verdade (equivalente 35mm), ou seja, multiplica-se o valor dado na objetiva pelo fator de crop das DSLR com sensor que o fotograma de 35 mm (como APS-C).
    É um limite é teórico, e claro, depende da habilidade do fotógrafo: quem tem mais experiência pode baixar mais a velocidade. Com isso, a velocidade a escolher depende da distância focal e do efeito desejado. É preciso praticar bastante para saber qual a melhor abertura para cada efeito.

    Um efeito possível do desfoque de movimento e destacar o que se move no meio do que fica imóvel... ou destacar o imóvel no meio do que se move! São vários exemplos: um corredor ou veiculo desfocado numa paisagem nítida, uma criança nítida no meio de outras brincando, o movimento dos braços de uma personagem aplaudindo... O desfoque de movimento é muito usado pelos fotógrafos de esporte para retratar uma ação atlética das pernas de um corredor ou sugerir a velocidade dum carro.

    PANNING
    Outra opção é o efeito de arrasto (panning), que consiste em obtiver um tema em movimento nítido, com um fundo desfocado (arrastado ou corrido) que ressalta a velocidade. Para conseguir esse resultado, em vez de deixar a câmera imóvel, é preciso seguir o tema. A dificuldade é grande e há que se experimentar bastante para ganhar a experiência que permitira conseguir esse tipo de fotos com poucas falhas.
    Para melhorar ainda o resultado, é possível usar o flash, no modo sincronização lenta ou sincronização na segunda cortina, dependendo da câmera. Combinando o flash com a baixa velocidade, você sobrepõe uma foto nítida (a luz captada no momento do disparo de flash) com outra desfocada (luz captada durante todo o tempo de abertura).
    Se o fotógrafo se mover mais lentamente que o tema, vai deixar riscos que dão a sensação de movimento. Caso o modo seja sincronização lenta, o flash dispara no início e os riscos aparecem à frente do tema. Se for sincronização na segunda cortina, é o oposto – o que geralmente fica melhor.
    O movimento também pode ser usado para gerar fotos totalmente desfocadas. Quanto menor a velocidade, maior o desfoque.
    Com aberturas entre 1/15s e 1/4s, dependendo da distância focal e do resultado desejado, qualquer tremor da câmera rende um efeito como de ondinhas na imagem, que parece um reflexo na água.
    Experimentação e experiência permitem dominar o processo em que as fotos parecem com pinturas onde os traços e contornos se afastam em beneficio às cores e texturas.

    OUTROS EFEITOS BACANAS
    Há outras maneiras de conseguir fotos desfocadas... O fotógrafo pode fazer a imagem de um tema que seja desfocado, como, por exemplo, os reflexos da paisagem na água, um panorama através de um vidro com condensação ou gotas de água... As opções são numerosas.
    Outro efeito bacana pode ser obtido acionando o zoom da objetiva. Dá um resultado parecido com um panning frontal, ou seja, como se o fotografo se mexesse na direção do tema em alta velocidade. As fotos obtidas com esse processo parecem muito dinâmicas. Os parâmetros que influem sobre o resultado são a velocidade do obturador, a rapidez do acionamento do zoom assim como a amplitude das distâncias focais usadas. O digital permite experimentar muito, sem custo, para conseguir o melhor uso do processo. Mas aconselho não abusar deste tipo de imagem, que pode ser bacana, mas acaba aborrecendo o observador se repetida muitas vezes.

    Existem também acessórios específicos para gerar desfoque nas imagens. A câmera de grande formato, por exemplo, permite a mudança do plano focal. O fotógrafo pode fazer um foco seletivo e deixar resto da imagem desfocado.
    Há filtros que permitem conseguir um efeito parecido com uma 35 mm (caso da Lensbaby), assim como muitos outros. Você pode procurar em lojas de fotografia, na Internet ou ainda nas feiras de antiguidades, onde se pode encontrar filtros bem esquisitos.
    O filtro mais comum que ajuda muito ao aplicar as dicas sugeridas, é o polarizador, que permite restringir a quantidade de luz que entra na lente em 1 ou 2 diafragmas enquanto reduz os reflexos. O filtro cinza neutro (ND) absorve ainda mais luz, possibilitando o uso de velocidades mais baixas. Os mais comuns são: ND x2 (-1IL), ND x4 (-2IL) e ND x8 (-3IL), mas existem também ND400 (-8,5IL) e ND1000 (-10IL).
    Fora isso, sempre dá para criar alguns efeitos de desfoque no pós-tratamento das imagens.
    Que tal sair com a câmera para tirar fotos desfocadas e curtir o resultado?


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